CULTURA E IDENTIDADE NA BELLE ÉPOQUE TROPICAL:

INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA DE MURILO MENDES

 

Teresinha V. Zimbrão da Silva – UFJF

 

 

O trabalho que ora comunico é parte integrante da pesquisa individual, Murilo Mendes: Formação na Província, que por sua vez integra uma pesquisa maior - financiada pelo CNPQ desde agosto de 1999 - produzida em conjunto com outros professores do Mestrado em Teoria da Literatura da Universidade Federal de Juiz de Fora e que veio a ser intitulada Imaginação de uma Biografia Literária: Os Acervos de Murilo Mendes. Notemos que estes acervos, definidos por uma biblioteca particular além de quadros e objetos de arte, constituem a principal motivação de toda esta pesquisa. Doados à UFJF em 1976 pela viúva do escritor, estão disponíveis à visitação pública no nosso Centro de Estudos Murilo Mendes.

A imaginação de uma biografia literária muriliana proposta por esta pesquisa integrada, pretende-se como contribuição para o preenchimento de um terreno bem pouco explorado no campo de conhecimentos sobre o escritor, que é o de estudos de caráter biográfico. No caso da pesquisa individual, Murilo Mendes: Formação na Província, a pretensão de contribuir para estes estudos será atualizada, como o próprio título sugere, em termos do resgate da infância e adolescência murilianas vividas na província de Juiz de Fora nas duas primeiras décadas do século XX. Lá nasceu Murilo Mendes em 1901 e de lá migrou para o Rio de Janeiro em 1921. Eis portanto definido o recorte temporal e espacial desta pesquisa em que venho trabalhando desde agosto de 1999.

Notemos que um tal recorte, coincidindo com a belle époque - que  no Brasil se prolongou até o término da primeira grande guerra - situa o meu trabalho no período de mais intensa europeização dos costumes no Brasil. Pois é justamente neste período crítico para o estudo da identidade cultural brasileira, que estarei tentando imaginar a biografia de formação de um escritor juiz-forano que veio a ser depois conhecido por seu europeísmo. Terei portanto o cuidado de valorizar os primeiríssimos contatos com a cultura da metrópole européia que o próprio contexto provinciano então lhe mediou. Para tanto, terei que também tentar imaginar como era esta província onde viveu Murilo Mendes a sua infância e adolescência. A proposta do meu trabalho passa a ser então mais geral, traduzindo-se pelo resgate da memória cultural da cidade de Juiz de Fora nas duas primeiras décadas do século XX, partindo do ponto de vista da biografia de formação de Murilo Mendes.

Pois sobre este trabalho, adianto desde já algumas notícias.

Principiemos por considerar o dado importante de que este contexto provinciano não se pensava tão provinciano assim. Juiz de Fora era considerada então a capital cultural do Estado de Minas Gerais, a sua cidade mais culta e civilizada, a própria “Atenas Mineira”. Tanto era assim que ao contrário do que acontecera com as demais Academias de Letras, a de Minas não fora fundada na capital do Estado e sim em Juiz de Fora. Por esta época lá residiam intelectuais do porte de Sílvio Romero que, diante da qualidade dos atores e das peças representadas no teatro juiz-forano, veio denominar a cidade de “Europa dos Pobres”, querendo, como ele mesmo explica, “significar com este dito” que do lado de cá do Atlântico, nas “doçuras do clima” de Juiz de Fora, aqueles que não traziam as “algibeiras recheadas” poderiam gozar de prazeres culturais e climáticos semelhantes aos das “capitais européias d’além mar”[1]. Já o conselheiro Rui Barbosa, quando em visita à cidade, preferiu adotar em seus discursos sobre o comércio e as relações liberais, a denominação de “Barcelona Mineira”[2]. A proliferação de indústrias e o estilo arquitetônico decorrente, tudo em tijolos vermelhos, valeu à cidade o título de “Manchester Mineira”. Notemos portanto, o quanto esta província construía então a sua imagem de tal modo que do ângulo que se olhasse a imagem da Europa estaria sempre presente.

Paralelo a este processo de europeização do imaginário sobre a cidade, deu-se à europeização da cidade real. Juiz de Fora adotou então modernas medidas de planejamento e de saneamento urbanos concordantes com os conceitos urbanísticos e de higiene em vigor nas metrópoles européias. A paisagem e os costumes da cidade modernizaram-se para dar lugar à “Europa dos Pobres”. O processou intensificou-se com a chegada dos imigrantes europeus, sobretudo alemães e italianos, importados para trabalhar nas indústrias da “Manchester Mineira”. Afinal, a exemplo do Rio de Janeiro, Juiz de Fora também teve a sua belle époque. De fato, distinguindo-se do resto do contexto mineiro e de sua tradição barroca, a cidade ingressou eufórica nos tempos modernos. No lugar dos conservadores sinos das catedrais chamando o católico às rezas, os apitos das progressistas fábricas convocando-o para trabalhar. Juiz de Fora despiu-se então de sua herança colonial para vestir com euforia o manto da civilização, seguindo exemplarmente os passos do Rio de Janeiro.

E este é um outro dado importante que estou considerando: a relação desta província com a metrópole externa era mediada pela metrópole interna. A última moda importada de Paris “adornava” primeiro a capital brasileira e a exemplo desta é que Juiz de Fora iria se “adornar”. Tanto era assim que a cidade euforicamente se pensava como “Rio de Janeiro em Ponto Pequeno” ou era pejorativamente pensada como “Carioca do Brejo”. Afinal, muitos nomes de suas avenidas, ruas e até estabelecimentos eram coincidentes com os do Rio de Janeiro, soando como ecos interioranos da capital litorânea. A avenida Rio Branco por exemplo, o boulevard retilíneo da cidade, era comparada com vantagem por viajantes às avenidas do Rio de Janeiro e às de Paris. Já a Rua Halfeld, veio a simbolizar para esta província o que a Rua do Ouvidor simbolizava para a capital. Reunindo um sofisticado comércio, esta rua contava com filiais de lojas famosas do Rio de Janeiro, ostentando charme europeu nas vitrines. Situada ainda nesta rua, estava a elegante Confeitaria Fluminense, a “Colombo Mineira”, toda decorada por espelhos e também o Hotel Rio de Janeiro, onde, segundo o literato Artur Azevedo, se comia tão bem como nos melhores hotéis da capital. Por concentrar cinemas, a Rua Halfeld veio ainda a ser conhecida como a Cinelândia de Juiz de Fora. Por fim, como mais um exemplo do quanto esta província ecoava de fato a capital, o caso da Academia Mineira de Letras cujo regimento interno era cópia quase literal do da Academia Brasileira. E mais, um dos seus acadêmicos maiores, Belmiro Braga, de quem Murilo Mendes recebera as primeiras lições de literatura, imaginava-se e era imaginado como a versão juiz-forana do acadêmico metropolitano Machado de Assis. Estou consideramos portanto, as relações de “dependência cultural”, tanto no seu percurso interno, de Juiz de Fora em relação ao Rio de Janeiro, quanto no seu desdobramento, de Juiz de Fora em relação à Europa via Rio de Janeiro[3].

Notemos que se a pesquisa integrada pretende-se como contribuição para o campo muriliano pouco explorado de estudos biográficos, a pesquisa individual tem ainda a pretensão de contribuir para um outro campo de conhecimentos: o de estudos sobre o Pré-Modernismo no Brasil. Afinal, sua proposta de resgatar a memória cultural de Juiz de Fora no início do século XX irá valorizar todo um espaço até então marginal na história canônica da literatura brasileira. Pois a valorização desta margem mineira possibilitará novas perspectivas para se estudar o nosso período pré-modernista. Consideremos ainda que este espaço não era antes tão marginal assim. Se a memória da importância cultural de Juiz de Fora no início do século XX esvaiu-se com o passar do tempo, a ponto de ser hoje preciso o seu resgate, permanece o fato de que a cidade representou então um papel importante. Lembremos que no cenário da belle époque, São Paulo e Belo Horizonte ainda eram provincianas figurantes. Depois da capital Rio de Janeiro, a cena cultural no sudeste brasileiro era protagonizada pela província de Juiz de Fora. O resgate de toda esta  memória proposto pela pesquisa individual possibilitará um novo ângulo para se apreciar a atuação dos nossos atores pré-modernistas.

Pois tendo feito uma primeira descrição deste contexto provinciano onde viveu Murilo Mendes a sua infância e adolescência, passemos então a dois outros objetos de estudo com que conta esta pesquisa individual para resgatar a memória cultural de Juiz de Fora do ponto de vista da biografia de formação do escritor - e que são: o seu livro A Idade do Serrote[4]  e as suas primeiras crônicas[5].

Entre 1965 e 1966, com a idade de sessenta e poucos anos, já na Europa como professor de cultura brasileira na Universidade de Roma, escreveu Murilo Mendes as suas memórias sobre a sua formação vivida em Juiz de Fora. Este texto autobiográfico intitulado A Idade do Serrote veio a ser publicado em 1968, quando o escritor, morando na Itália há 11 anos, era um nome consagrado nas letras brasileiras. Em um outro trabalho, adianto um estudo sobre este texto, principalmente cuido então de explicitar o registro que o próprio escritor cosmopolita nos legou sobre os seus primeiros contatos na província com a cultura da metrópole européia[6].

Quanto as primeiras crônicas do escritor - ao todo são 36 - foram publicadas, sempre na página 2, do jornal juiz-forano A Tarde no período que vai de abril de 1920 a julho de 1921. Em 1920, saíram 28 na coluna intitulada “Chronica Mundana”, além de saírem mais 2 sob os respectivos títulos: “Para o Poeta Harold Ler” e “Odysséa dum Poetastro”. Em 1921, já no Rio de Janeiro, o jovem Murilo Mendes enviou 2 crônicas para a coluna intitulada “Bilhetes do Rio” e publicou mais 4 “Chronicas Mundanas”. Estas 36 crônicas estão em microfilme e a sua transcrição é parte do trabalho desenvolvido por esta pesquisa que por ora tão somente pode adiantar destas uma primeira descrição.  

Na sua “Chronica Mundana”, como o próprio título sugere, Murilo Mendes registra sobretudo aspectos da vida mundana da cidade, que a exemplo do Rio de Janeiro então se europeizava. Aspectos tais como: a admiração de passantes diante da importada “vitrine” de uma loja elegante, “uma espécie de Kaleidoscopio” reunindo variados objetos que a todos encanta com a sua “iluminação feérica” - daí concluindo o cronista provinciano, a exemplo dos metropolitanos, que também “decididamente Juiz de Fora civiliza-se” (06/10/1920); ou ainda a recepção local tanto ao cosmopolita Rui Barbosa, que recebe então de “moças gentis” um “punhado de flores” (15/10/1920), quanto ao majestoso Rei Alberto da Bélgica, que por sua vez recebe dos juiz-foranos um “album artístico” com “interessantíssimos artigos e poesias” dos “mais eminentes autores” da cidade (30/09/1920); ou ainda o deslumbramento dos moços no footing da Rua Halfeld diante de encantadoras mademoiselles, vestidas elegantemente,  “no fulgor da sua beleza” - daí suplicando o cronista que as demais “gentilíssimas patrícias” não se exilem “como freiras, em suas casas”, que corram todas, “em bando”, à “melhor rua” da cidade, que mesmo sendo “tão mal iluminada”, brilha com esplendor  à “hora, sobre todas querida, do footing”( 07/10/1920).

Também comparecem registradas na “Chronica Mundana”, as críticas do cronista ao provincianismo da sociedade juiz-forana: seja na exposição do quão “ridículo” soa a indignação de um amigo, num “século de amor-livre”, diante do “caso simples de duas bocas que se beijam numa sombra grata e favorável”, em “travessa propícia” de tão “estupenda cidade” - daí alertando o cronista àqueles que pretendem a “regeneração dos costumes” em Juiz de Fora que sendo esta uma “época de deliciosa liberdade”, quem “quiser destruí-la deve ser considerado maluco” (05/10/1920); seja na defesa de que determinada orquestra juiz-forana é deveras “maçante” pois interpreta “peças antigas e lassas, velharias sentimentais que não agitam os nervos de quem vive num século de automóveis” e “vive desejando alguma coisa melhor - algo nuevo” (07/10/1920), seja na depreciação daqueles que insistem com a “mania” passadista de  “comemorar fatos históricos” num século de modernos “aeroplanos e automóveis”( (02/10/1920).

A “Chronica Mundana” registra ainda notícias sobre pontos chics da cidade, “lugar de quantos amam as palestras amáveis e fáceis” e onde há “bebidas finas” e gente “elegantíssima” (12/10/1920); notícias sobre festas beneficentes, promovidas por “distintas senhoras”  e freqüentadas pelo que a “cidade tem de mais seleto e fino” (14/10/1920); notícias sobre “galerias distintas” cujas “vitrines” estão dispostas com toda a “elegância”, demonstrando o “bom gosto artístico” de seus proprietários (06/11/1920); notícias sobre decorações de “elegantes vivendas” por conhecidos pintores, já que se desenvolve então em Juiz de Fora “o amor dos interiores nobres e artísticos” (27/10/1920) e ainda notícias sobre o sucesso tanto de concertos em “admiráveis noites” que a “todos encanta”, pois se intensifica na cidade o “culto pela arte”, registrado com todo o “prazer” pelo cronista (30/10/1920), quanto de estréias de filmes europeus no cinematógrafo compartilhados por “assistência numerosa e brilhante” (08/10/1920),       

Em suma, em sua “Chronica Mundana”, o jovem Murilo Mendes registra notícias de livros, de concertos, de óperas, de exposições artísticas, de peças teatrais, de “estréias no cinematógrafo”. Afinal, Juiz de Fora se pensa então como uma “cidade onde há espíritos cultos que estão em contacto permanente com os grandes centros”, esta província sobretudo se imagina como uma “cidade elegante” que a exemplo da capital nacional e das capitais européias se caracteriza pelas “diversas ocupações amáveis que a gente fina tanto aprecia”, tais como literatura, música, artes plásticas, teatro e cinema (15/10/1920).

Eis então as primeiras notícias sobre este trabalho, onde procuro resgatar a memória cultural da cidade de Juiz de Fora durante as duas primeiras décadas do século XX, partindo do ponto de vista da biografia de formação de Murilo Mendes.

 



[1] ROMERO, Sílvio. Prefácio à obra de Albino Esteves, O Theatro em Juiz de Fora, Typ. d’O Pharol, 1910, p. 11.

[2] BARBOSA, Rui. Declaração no livro de visitas da Associação Comercial de Juiz de Fora em 3 de Abril de 1919.

[3] Sobre Juiz de Fora no início do século, destacamos a seguinte bibliografia:

BRAGA, Belmiro. Dias idos e vividos. Rio de Janeiro, Ariel, 1936.

CHRISTO, Maraliz de Castro Vieira. A “Europa dos Pobres”: Juiz de Fora na Belle-Époque Mineira. Juiz de Fora: EDUFJF, 1994.

ESTEVES, Albino. O Theatro em Juiz de Fora, apontamentos. Juiz de Fora: Typ. d’O Pharol, 1910.

JUIZ DE FORA EM DOIS TEMPOS. Tribuna de Minas. Juiz de Fora, Esdeva, 1997.

NÓBREGA, Dormevilly. Revendo o Passado: Memória Juiz-Forana. 2 vols. Juiz de Fora: Edições Caminho Novo, 1997-1998.

OLIVEIRA, Paulino de. Efemérides Juizforanas1698-1965. Juiz de Fora: UFJF, 1975.

ROMERO, Sílvio. Um Polemista Mineiro. (Série de dez artigos sobre Estevan de Oliveira publicados no Correio de Minas, jun. 1912). Revista do Livro, Rio de Janeiro, n 12, p. 215-229, dez. 1958.

RUA HALFELD. Tribuna de Minas. Suplemento Comemorativo do 1480 aniversário de Juiz de Fora. Juiz de Fora, Esdeva, maio de 1998.

[4] MENDES, Murilo. A Idade do Serrote. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994, p. 893-975.

[5] MENDES, Murilo. Chronica Mundana. A Tarde. Juiz de Fora, abril de 1920 a julho de 1921, p.2.

[6] SILVA, Teresinha V. Zimbrão da. A Belle Époque nos Trópicos: o caso juiz-forano. Comunicação apresentada no Congresso Internacional de Lexicografia e Literaturas no Mundo Lusofônico. Rio de Janeiro, UERJ, 17 a 21 de julho de 2000.